sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Coma - Labor ad Æternum

Sabia que, alguma hora, iria ter com a realidade novamente e, felizmente, reconhecer o que aconteceu durante o tempo que estive longe. Essa certeza quase holística permitiu que a retomada fosse algo calma, de uma tranqüilidade que não chega a ser normal. Assim o seria se houvesse algum sobressalto.

Queria ver meu rosto. Precisava disso, mesmo! Por acaso, encontrei, em meu movimento positivo até a imagem, um índice de quem me esperava. Assustei-me. Não estava do lado de fora, sequer ao chão, atravancando o caminho, mas amplamente presente em tudo que me rodeava. Como pode haver tanto de quem espero num lugar tão inóspito desde minha partida?
Ao sair, lembro sentir felicidade. Por uns três a quatro minutos, contemplei ainda a estação. Parecia eternamente pacífica: afastava-se de meu olhar sem esboçar reação material. E adentrava mais meu pensamento como um aviso de que havia deixado lá minha bagagem.

Sem ter como me alimentar, fiz daquela recordação uma boa desculpa para esquecer essa necessidade. Repetia centenas de milhares de vezes os detalhes de seu telhado quase branco, de suas portas quase móveis, de suas sombras quase gente... Deixava de sentir, para sempre por aquele dia, dessa maneira, inclusive o vento, que se debatia desesperado, na falta dos meus cabelos, na madeira, no vidro das janelas.

Pela manhã, havia um anti-clarão. Esperei o momento exato para visitar minhas árvores batendo latas para que permanecessem, digamos, atentas. Uma delas abriu sua flor logo ao fim do meu espetáculo. Via com curiosidade nova seu apelo vital por partilha. Havia prazer em seu ato, chamando minha disposição para que a fizesse alguma companhia.

Quando brotou uma rama, fiz festa. Percebi que era capaz de prover vida a um espaço árido nos fundos e ao lado de minha casa. Suspeitei da fertilidade, não antes sem que houvesse desconfiança. Dupla. Ornava precariamente de onisciência falha uma possibilidade de vida até então plenamente questionável.

Sei que, alguma hora, terei com a realidade novamente e, felizmente, reconhecerei o que acontece durante o tempo que se está longe. Essa certeza quase holística permitirá que a retomada seja algo calma, de uma tranqüilidade que não chegará a ser normal. Assim o será sem que haja algum sobressalto.

Quererei ver meu rosto. Precisarei disso, mesmo? Certamente, encontrarei, em meu movimento positivo até a imagem, índices de quem me espera. Assustar-me-ei. Estará do lado de fora, inclusive ao chão, a embelezar o caminho, amplamente presente em tudo que me rodear. Como poderá haver tanto de quem espero num lugar tão habitado desde minha chegada?

Ao chegar, lembrarei sentir felicidade. Por uns três a quatro minutos, contemplarei ainda a estação. Parecerá eternamente pacífica: aproximar-se-á de meu olhar sem esboçar reação material. E adentrará mais meu pensamento como um aviso de que deixarei lá minha bagagem.

Por ter como me alimentar, farei daquela recordação uma boa desculpa para celebrar essa necessidade. Repetirei centenas de milhares de vezes os detalhes de seu telhado branco, de suas portas móveis, de sua gente quase sombras... Passarei a sentir para sempre, nesse dia, dessa maneira, inclusive o vento que se debaterá aliviado com meus cabelos, na madeira, no vidro das janelas.

Pela manhã, haverá um clarão. Esperarei o momento exato para visitar minhas árvores, cantando para que permaneçam, digamos, amenas. Uma delas abrirá sua flor logo ao fim do meu espetáculo. Verei com curiosidade nova seu apelo vital por partilha. Haverá prazer em seu ato, chamando minha disposição para que a faça ampla companhia.

Quando brotar uma rama, farei festa. Perceberei que sou capaz de trazer perfeição a um espaço antes tão árido fora de minha casa. Suspeitarei da fertilidade, não antes sem que haja desconfiança. Dupla. Ornarei precisamente de consciência uma certeza de vida até então plenamente questionável.

Um comentário:

Memento Mori disse...

Lindo texto...
Que deve ser lido mais de uma vez, para que se perceba toda a essência poética nele contida...

Abraço, Mestre!